A rainha loba
A mitologia galega é cheia de lendas
de lobos, ou pessoas relacionadas de algum modo a estes animais,
mostrando de uma certa forma o medo e respeito que tinham por este
animal. Durante a Idade Média foram terrivelmente perseguidos,
considerados seres malignos. Mas ao que parece, voltando no tempo, estes
animais eram considerados sagrados, sendo mais respeitados que temidos
pelas pessoas, sendo os protetores dos bosques. Hoje o lobo nativo da
Península Ibérica é um animal ameaçado de extinção. Mas ao menos nas
lendas continua eterno.
Uma destas lendas não é sobre um lobo
mas sobre uma rainha identificada com este animal por sua crueldade: a
Rainha Loba. Não se sabe ao certo se algum dia caminhou por esta terra
ou se apenas caminhou, ao longo dos séculos, na imaginação dos galegos.
Pela imagem negativa, relacionando a rainha com o lobo, é possível ser
de origem medieval, apesar de nada na história identificar em que tempos
teria se passado este fato narrado na lenda.
Conta-se que na província de Orense,
viveu há muito tempo atrás uma poderosa mulher, tão cruel e soberba que
era chamada pelos camponeses de seu senhorio de “a Rainha Loba”.
Para seu sustento e de seus agregados
(tão cruéis quanto ela), obrigava que seus súditos entregassem, todos os
dias, uma vaca, um porco, e uma carroça cheia de outros alimentos. As
aldeias camponesas revezavam-se nesta entrega de víveres, por medo dos
guerreiros da Loba, que arrasavam e incendiavam casas e colheitas, e
assassinavam a todos os habitantes das aldeias, nas que alguma família
se negasse a entregar o que era reclamado.
Neste clima de terror vivia toda aquela
região, quando chegou a vez do povoado de Figueirós entregar os
alimentos. Os moradores reuniram-se em assembléia e decidiram não pagar o
tributo que lhes arruinava. Mas dizer “não pagaremos” não seria o
suficiente, porque a rainha mandaria contra eles suas hostes e seriam
perseguidos e mortos. Decidiram que se haviam de morrer de fome ou às
mãos dos facínoras da Loba, melhor era morrer combatendo contra ela
própria.
Armaram-se o melhor que puderam. Fizeram
lanças e dardos, arcos e flechas, recolheram pedras e paus. Na escuridão
da noite, puseram-se a caminho do castelo da malvada mulher.
A Loba e seus seguidores dormiam.
Confiantes no terror que incutiam na região descuidaram da vigilância.
Nunca ninguém atreveu-se a desafiar seu poder, nem contavam com que tal
coisa pudesse acontecer.
Secretamente, os moradores de Figueirós
escalaram as muralhas e abriram as portas, surpreendendo aos perversos
homens da Loba. Um curto mas sangrento combate deu vitória aos aldeões,
que lançaram-se escada acima em busca de sua opressora.
A Loba refugiou-se na torre mais alta,
mas nenhuma porta era suficientemente segura para resistir aos decididos
assaltantes. Quando viu cair sua última defesa ante a força impelida
por seus inimigos, e não querendo submeter-se aos que ela considerava
como seus escravos, a Loba correu até uma janela e lançou-se no vazio,
morrendo despedaçada sobre as rochas.
Com sua morte, acabou o suplício dos
habitantes da região, que recordaram durante séculos, em romances e
canções, o valor dos moradores de Figueirós.
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